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MÉTODO DE ENSINO
E APRENDIZADO

APRESENTAÇÃO  

Existiram no passado, e existem atualmente, vários “métodos de ensino”.
O mais antigo que conheço é o das maltas cariocas, descrito por Plácido de Abreu no seu livro de 1886.
Mas o que vemos, a partir da década de 1930, é um contínuo: Bimba/ Pastinha (1930s e 1940s); Senzala e baianos em São Paulo (1960s e 1970s); novos angoleiros (1985); e finalmente os neo-regionais e neo-angoleiros e outros na atualidade.

Ou seja, em determinado momento uma geração modifica, geralmente ampliando, aprofundando e sofisticando o método das gerações passadas. 

Existem atualmente mestres melhores e outros, piores. Também existem variações nos métodos de ensino usados por diferentes mestres. Mas a estrutura básica da aula, com seus defeitos e qualidades, é a mesma em todos os estilos (e é baseada no método criado por mestre Bimba nos 1930s, em Salvador): 

 

  • Ginástica de aquecimento
  • Treino de “sequências de golpes pré-determinados” para duplas
  • Treino com todos alunos seguindo a movimentação do professor, que se coloca na frente da turma
  •  Treino de golpe, de golpe e contragolpe, de quedas, de floreio, de jogo no chão, em duplas ou individualmente
  • Alunos atravessando a sala enquanto fazem individualmente uma sequência
    pré-determinada de movimentos
  • E a roda no final da aula

Vamos, agora, propor um possível desdobramento desta dinâmica, tendo em vista as necessidades deste novo século, os 2000s. Vamos ver a possibilidade de um método que é (realmente) baseado no brincarMas sem descartar os treinamentos metódicos e repetitivos, que são a base dos métodos atuais, 
e que proporcionam um rápido desenvolvimento técnico. 

Não se trata de nada revolucionário; não se trata de quebrar toda a estrutura para reconstruir do zero. Mas, sim, de sugestões de novos treinamentos a serem inseridas nas aulas, e que serão utilizados juntamente com o que já existe.
E também de sugestões para uma nova postura, menos autoritária, do professor e do mestre em relação aos alunos. 
NOTA
O histórico de todos estes métodos são estudados à fundo, tipo mestrado e doutorado, nos 3 volumes da nova Trilogia do Jogador, de Nestor Capoeira, publicados em 2015, e disponíveis como eBooks na www.amazon.com.br
(Nota do editor) 
BRINCAR: UMA COISA INFANTIL
Esta coisa, aparentemente inconsequente e “infantil” – o brincar
– que está no cerne do Jogo de Capoeira, foi castrada dos métodos de ensino atuais, apesar do papo que este e aquele mestre possam desenvolver.
Esta coisa, aparentemente inconsequente e “infantil” – o brincar
– é também algo básico na vida e na cultura humana. Vamos apro- fundar este ponto de vista com Geertz, Lewis, Huizinga e principalmente Winnicott e Muniz Sodré, nas próximas páginas. 

O Brasil não é para principiantes
Tom Jobim dizia que “o Brasil não é para principiantes”. 
Muniz Sodré – um dos mais importantes pensadores brasileiros da atualidade – ressalta a importância da Alegria no seu Estratégias Sensíveis (Petrópolis, RJ: Vozes, 2006).
Creio que, segundo este ponto de vista, poderíamos dizer que a Alegria, e as manifestações culturais impregnadas por ela, seriam parte de uma estratégia de construção,
manutenção e fortalecimento de um Identidade Contra-hegemônica. 
No nosso caso específico: “sou do samba” ou “sou capoeirista”. 
Ou como cantava mestre Leopoldina: “Eu sou é bamba!”. 
Esta mesma Alegria, e também o jogo/brincadeira, também já foram louvados por pensadores tão diversos quanto Huizinga, na Alemanha, no seu clássico Homo Ludens
(SP: Ed. Perspectiva , 2000, ebook): 
É no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve. 
O Jogo é fato mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em suas definições menos rigorosas, pressupõe sempre a sociedade humana. Mas, os animais não esperaram que os homens os
ini- ciassem na atividade lúdica. (p. 5) 
Existem entre a festa e o jogo, naturalmente, as mais estreitas relações.
Ambos implicam uma eliminação da vida quotidiana. (p.19) 

Winnicott (O brincar e a realidade. RJ: Imago, 1975), médico inglês que no pós-guerra de 1944 chefiou um enorme projeto com crianças e orfãos, e mais tarde foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise Inglesa, também dizia: 
É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral. 

Vejamos, agora, o que diz Lewis em sua tese de doutorado Ring of Liberation (Chicago: Univ.of Chicago Press, 1992) (minha tradução): 
No seu mais famoso artigo, Geertz propõe que a briga de galos balinesa é uma espécie de ‘deep play’ (brincar profundo) e esta é uma frase que eu (e outros) achamos extremamente afortunada para pensar a respeito de muitas formas de expressão cultural,
incluindo a capoeira...  
Todavia, uma questão que Geertz não colocou é precisamente porque o brincar é tão revelador de padrões culturais profundos... Talvez parte da resposta tenha a ver com, como o brincar ser- ve como um framework (grade) para contextualizar encontros sociais. Esta foi a visão central de Bateson (213) em relação ao brincar, que Goffman expandiu para um enfoque geral para compreender a natureza humana. (214) 

Muniz Sodré e uma filosofia brasileira
Hoje, as oito pessoas mais ricas do mundo, segundo a revista Forbes, possuem uma riqueza igual àquela da metade mais pobre da população mundial, algo como 3,6 bilhões de pessoas.
(Domenico de Masi, professor de sociologia da Universidade La Sapienza, Roma, Italia) 
Numa entrevista (13/3/2013) para um DVD-documentário (www.abeiramar.tv) Muniz Sodré reafirmou não só a importância da Alegria para o Ser Humano, como já mencionamos, mas também como uma das constituintes de nossa Identidade Brasileira: 
“Se quiséssemos fazer uma filosofia brasileira teríamos que partir da Alegria;
o povo é voltado para isto”.
Por outro lado, o ufanismo não é um ponto de vista dos mais privilegiados. E é o mesmo Muniz Sodré, na mesma entrevista, quem afirma: 
“Os estrangeiros, como o italiano Domenico de Masi, tem uma visão muito otimista do Brasil especialmente após a crise que começou nos Estados Unidos em 2008. Mas eles passam por cima de questões graves como a concentração de renda, a desigualdade de renda; a questão da corrupção das elites, do desprezo que as elites tem pelo território; da separação entre Estado e povo... a questão do poder concentrado numa abstração geográfica – Brasília. 
No Brasil o que é eficiente, o que é eficaz – seja o Ministério Público, ou o Judiciário, etc. –, cai no autoritarismo, cai no autocratismo, se torna uma pequena ditadura. Na verdade, eu penso que o país tem uma vocação para a ditadura, para o fascismo;
não é essa coisa que se pensa – bonomia... 
O povo brasileiro é conservador e, quando ele se organiza, mui- tas vezes utiliza formas que não são próprias às instituições po- pulares, formas que tem uma tendência para o ascismo...   
No Brasil há uma vocação para o fascismo em todos os níveis 
– os ruralistas, os evangélicos, etc. –, se fossemos um país extre- mamente organizado
seria um problema.” 

Mas Muniz Sodré, após suas críticas naquela entrevista de 2013, ilumina positivamente e com esperança diversos cenários do “País que Não É Para Principiantes”: o Gesto, a Dança, a Música, o Cor- po, o Brincar, a Festa e a Alegria como “estratégias de um povo para contornar a impiedade do Estado”. 
Diz Muniz Sodré: 
As pessoas de fora não veem claramente o território muito grande, que resiste aos seus governos, resiste ao Estado, resiste ao fechamento dos discursos das instituições. O território é muito rico, é muito amplo. Então eu acredito na territorialidade nacional, eu acredito na diversidade, na heterogeneidade simbólica  – o Brasil é um continente .
Acho que é isto que nos salva do Estado, das elites, da classe política. 
... Esta fraca consciência cívica da população brasileira, esta dispersão que vemos, p.ex., na televisão, é uma esculhambação. E talvez seja isto que nos salva, o que nos salva é a esculhambação (... se fossemos um país extremamente organizado seria um problema). 
Isso que você poderia chamar de “esculhambação” tem uma ordenação diferente, tem outra regra; nós poderíamos chamar isso “a regra do malandro”, que parece a regra do malandro do passado, que não queria trabalhar. Mas, na verdade, é a regra nacional, que tende a burlar o código rígido, o Estado, e o fascismo também.
No Brasil, temos a malandragem que destrói esta burocracia e nos salva. 
Talvez seja necessário repensar a malandragem. Não mais o malandro da Lapa dos 1920 e 1930, mas a malandragem como esse jeito de se livrar dos pesos e das amarras. Quando isto acontece você tem a alegria, algo muito importante que eu abordei no livro
“Estratégias sensíveis”. 
A malandragem como esse jeito de burlar as dificuldades e os obstáculos, em vez de fazer face ao obstáculo como no box – duas técnicas que se batem. A malandragem como esse jeito de contornar o adversário como na capoeira; eu acho que isto pode ser brasileiro. Pode até vir de um lugar – Rio de Janeiro –, mas é uma forma que encontra as estratégias de um povo para contornar a impiedade do Estado. 
Esse malandro talvez tenha alguma coisa de espiritual nele. Não é a toa que uma das maiores entidades da espiritualidade carioca seja o Malandro;
o Zé Pelintra que chefia uma falange imensa. 
... O povo joga capoeira. 
O povo dribla as adversidades como o capoeira dribla o adversário, e faz isso cantando; e quando pode, bate. 

Os excessos da realidade virtual 
Outra coisa que vamos tentar entender é a parte negativa (obviamente também existe uma “parte positiva”) da tele-realidade (televisão), da realidade virtual (internet, etc.),
que tem como efeito, cada vez mais, descartar o Corpo e obscurecer o Ritual
e o Mito que são elementos básicos da vida e da cultura humana. 
Vamos tentar entender este processo para poder oferecer uma opção alternativa eficaz. 


RITUAL E MITO
A tela mágica 
Muito antes da invenção da eletricidade, os humanos reuniam-se à noite em volta da fogueira. 
Nas areias do deserto, nas selvas tropicais, nos climas frios e enevados, na beira das praias,
os humanos olhavam mesmerizados o jogo cambiante de luz e cores enquanto as estrelas e a lua brilhavam longínquas no alto dos céus. 
Em nossos dias é possível que esta fascinação tenho se transferi- do para a tela da televisão e do computador. 
No entanto, existe uma preocupação comum a vários setores, com o conteúdo – violência, pornografia, incentivo ao consumo exagerado, etc. – da programação da televisão e da própria Internet. 
O que fazer? 
Ou melhor diríamos: tentar fazer o quê?
Pois uma censura, mesmo baseada em motivos justos e bons, poderia ser um precedente perigoso. 

Outros estudiosos se preocupam em como a televisão, independente do conteúdo da mensagem (o que está veiculado nas novelas, nas séries, nos telejornais, nos anúncios, etc.), altera o relaciona- mento do indivíduo com o imaginário; com o real;
com a sociedade; e com os outros indivíduos. 
Com a popularização do computador a partir de 1990, e do computador portátil
(menor que um maço de cigarros) a partir de 2010, muitas pessoas, e uma grande quantidade de pais e mães estão pro- fundamente preocupados com a quantidade de horas que crianças e adolescentes passam em frente à telinha mágica. 
Pelo simples fato de passar grande parte de suas horas de folga passivamente sentado frente ao aparelho de TV, ou do computador e da Internet, ocorrem alterações mais profundas no indivíduo que poderia supor o pensamento marxista, ou as terapias da modernidade. 
Preocupações e problemas complexos. 
E mesmo que estivéssemos seguros da propriedade de certa forma de ação, esta seria de difícil realização face ao poder dos grandes complexos mass mediáticos, e da grande popularidade da televisão e da Internet que, afinal de contas, também são maravilhosas ferramentas pedagógicas e comunicacionais. 
Simplicidade na área
A escolha desta proposta – “não enfrentar o Golias virtual; fortificar o David mestiço”
– tem tudo a ver com a Malícia da Capoeira. Na capoeira não se bate de frente; não se “bloqueia” um golpe;
ao contrário, o capoeira se esquiva “acompanhando” o ataque e, no mesmo movimento,
contra-ataca ou derruba (com uma rasteira, etc.).
Ou como nos confidenciou o finado mestre Canjiquinha: “dá pra escorar a pancada de um camarada muito forte; mas não dá pra escorar um caminhão desgovernado à 120 km/hora”. 

Então, já que a “aula de capoeira” e “treinamentos metodifica- dos” são uma constante na capoeiragem contemporânea, o negócio é tentar criar treinamentos-antídoto; anti-mecanicistas; que sejam divertidos (e também eficazes). Se estes novos treinamentos se
mostrarem efetivos, ajudando a formar novos excelentes jogadores; sem dúvida serão adotados por muitos mestres e professores.
E aí, sim, os “treinamentos mecânicos e repetitivos” que proporcionam uma alta performance na técnica dos golpes, terão um valor positivo, pois estarão sendo realisados em conjunção com outros que desenvolvem o lado lúdico e criativo da Vadiação

A BRINCADEIRA SEGUNDO WINNICOT
Winicott e o jogo; iniciante x adiantado
Algumas colocações de Winnicott encontram ressonância no universo da capoeiragem.
Referindo-se ao valor da ilusão, Winnicott afirma que, a princípio, a mãe propicia ao bebê a oportunidade de ter a ilusão de que ele tem o “controle mágico” do seio (da mãe);
o bebê começa a chorar e “magicamente” aparece um seio para alimentá-lo!
Isto é muito importante para dar ao bebê uma sensação de auto- segurança.
Pois, na verdade, se o bebê tivesse consciência de sua vulnerabilidade, e de sua dependência da mãe e do pai, provavelmente viveria apavorado e paranoico.
No final deste primeiro período (de uns 6 meses), a mãe “desilude” gradativamente o bebê, e o bebê começa a entrar na realidade da vida. Inclusive a entender que ele e a mãe
( e as outras pessoas também) são indivíduos separados
(e não uma geleia geral sob comando mágico do bebe). 
Mas o sucesso em criar um filho saudável, no entanto, depende da mãe ter propiciado a “oportunidade para a ilusão” à criança, num estágio inicial de sua infância. 

Comentário:
Sem dúvida isto seria a proposta ética ideal para o professor de capoeira de nossos dias
Nas rodas ao final das aulas, a Capoeira deveria se apresentar para o aprendiz como uma brincadeira entre amigos, sem maldades, nem mesquinharias advindas dos jogos de poder e do embate entre personalidades.
O risco de dano físico deveria ser limitado ao máximo pelo professor, fazendo o iniciante jogar com um aluno mais desenvolvido; mas somente o iniciante pode dar os golpes, o aluno mais adiantado somente se esquiva e se movimenta.
Normalmente nas academias, quando o iniciante começa a jogar na roda, o aluno adiantado dá uma colher-de-chá. Mas, de vez em quando, aproveita a falta de experiência, e a falta de técnica do iniciante, para treinar suas rasteiras e bandas.
O iniciante cai de bunda no chão, e todos acham que “aquilo é parte do Jogo” (e realmente é, mas somente numa fase posterior).
Na sequência desta fase inicial (que pode durar de 2 ou 3 meses até 6 meses), após o iniciante experimentar, semelhante ao bebê de Winnicott, a “ilusão de controle mágico e onipotência” (o outro jogador não ataca, nem revida; apenas se esquiva); só então o iniciante é introduzido ao Jogo propriamente dito, com seus perigos, atritos e mistérios. 
E somente noutra fase, mais adiante ainda (um ou dois anos) – quando o iniciante já sabe se defender, já conhece a “maldade” e a “traição” –, o iniciante é introduzido em outras rodas, onde há a possibilidade do encontro com capoeiristas que jogam com o intuito de “vencer” (para “aparecer” e fazer nome); de quebrar os mais fracos ou “incompetentes”;
e onde a regra do jogo é: “entra quem quer, sai quem pode”. 
Semelhante à mãe, o sucesso do mestre em formar o capoeirista depende de ter proporcionado no início do aprendizado a “oportunidade para a ilusão”.
É ali que o iniciante percebe e vivencia, jogando despreocupada- mente
(pois não há revide do jogador mais adiantado), que a essência do Jogo de Capoeira,
apesar de tudo, é a brincadeira. 
Esta maneira de tratar o iniciante é, para mim (Nestor), essencial. Eu a utilizo no meu ensino; mas isto não acontece na grande maioria das outras escolas. Talvez por não terem sidos alunos de Leopoldina (1933-2007), por sua vez aluno de Quinzinho.  
Quinzinho apesar de ser chefe de uma gangue de assaltantes de banco, e ter várias mortes nas costas, não admitia que os mais experientes batessem nos iniciantes:
“ele fica covarde e não aprende!”. 
Winicott e o jogo; iniciante x iniciante
Por outro lado, quando dois iniciantes jogam, um com o outro, a situação já é diferente.
Normalmente nas academias, o mestre deixa o jogo rolar normal- mente. Só interfere se os dois começarem a se estranhar de verdade, e partirem para a porrada. 
Pensando em Winicott, eu ajo de outra maneira: quando um iniciante joga com outro iniciante, não podem dar golpes.
Somente movimentam-se, em pé e no chão, dando aús (geral- mente muito mal executados), gingando, e também saindo da ginga para improvisarem (mesmo que seja uma improvisação “maluca” e sem sentido). Desta maneira, desde o início, os iniciantes vão aprendendo a
“brincar dentro da luta”. 
Winnicott e o jogador que não sabe brincar
A psicoterapia, diz Winicott, trata de duas pessoas que brincam juntas
(o terapeuta e o paciente).
Em consequência, onde o brincar não é possível, diz Winnicott, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar, para um esta- do em que é (evidentemente se o terapeuta, ou o mestre de capoeira, não sabe brincar, estaria desqualificado). 

Comentário:
A preocupação de um mestre com um aluno iniciante é, antes de mais nada, levar o iniciante a um estado de espírito em que ele comece a “brincar” dentro da roda, de preferência até antes de saber jogar. Ou no caso do jogador que veio de outra academia: antes de corrigí-lo de possíveis defeitos “técnicos”, o trabalho do mestre é ensiná-lo, ou melhor,
aos poucos levá-lo a “brincar dentro da luta”.
No entanto, em muitos casos, isto é impossível porque o próprio aluno não quer “brincar”, só quer jogar “sério”. 
Winicott e o ensino da capoeira sem brincadeira
O ensino sem esta possibilidade de brincar (dentro ou fora da capoeira) é doutrinação e produz submissão, e não produz a emer- gência de um self. 
No caso de um bebê, Winnicott diz que quando há um fracasso na “fidedignidade ambiental” (quando o “controle mágico” não foi transado nos primeiros meses, ou o bebê não recebeu o carinho e cuidados nos meses seguintes), então o “espaço potencial” – aquele do brincar – é preenchido pelo que é introjetado por outrem. Trata- se de material persecutório, sem que o bebê tenha meios de rejeitá-lo.
E como resultado, emerge um falso self.

Comentário: 
É o que acontece na maioria dos grupos, onde o iniciante não vive a experiência da brincadeira sem medo (o tal “controle mági- co”). E, ao invés disto, desde as primeiras aulas, o iniciante é bom- bardeado com regras: como fazer “corretamente” tal movimento; como respeitar com seriedade os alunos mais graduados, e se não respeitar entra na porrada dentro da roda; como o grupo dele é o melhor; e como seu mestre é a voz de deus sobre a face da Terra
(ou seja: o tal “material persecutório” que é “introjetado por outrem” e faz emergir um
“falso self”, ou “falso eu” no iniciante que quer se mostrar um fodão quando na real
é um otário bundão). 
Winicott e o exagero de violência
Winnicott aponta também que, se a excitação física vai além de um determinado patamar, então o brincar se interrompe ou se es- traga. 

Comentário: 
É o que acontece com o jogador que, no afã de “vencer”, apela para a força bruta, para a violência fora do âmbito do jogo. Ou quando se embola com o outro jogador pelo chão numa autêntica “briga-de-rua” que escapa ao contexto e ao patamar máximo de excitação e energia necessários para a manutenção das características do Jogo. 
Winicott e a “transição”
Para bem entender Winnicott é necessário conhecer conceitos como:
-“objeto transicional”: o bebê se apega a um ursinho, ou a um travesseiro, etc.; 
-“fenômeno transicional”: a relação que o bebê desenvolve com aquele objeto, que se refere a uma passagem do “sentimento de onipotência” (e do “controle mágico”) do bebê, para um relacionamento do bebê com o mundo “exterior”: 

onipotência (“controle mágico”) –> objeto transicional –> brincar –> brincar junto com outros –> jogo c/regras –> cultura. (220) 

Estas fases não são necessariamente evolutivas, com uma fase superando totalmente a precedente. Mas o esquema acima é útil. Poderíamos situar a capoeira num ponto qualquer entre o “brincar junto” e a “cultura”.

Comentário:
No entanto a capoeira não deve ser associada, totalmente, a um “jogo com regras”, mais típico do esporte. 
A capoeira não é regida pela racionalidade, ou objetividade (que tudo justificam, e são pragas de nosso tempo). Temos, ao invés disto, algo da ordem do ritual, da brincadeira “inventada” e inventiva, tal qual encontramos entre as crianças.
Mas vejam bem: depois da “fase de onipotência e controle mágico”, e da “fase transicional” (no final de uns três ou cinco anos), o jogador (que não é mais um iniciante), tem de ser introduzido a um patamar onde existe o Perigo. 
Ou seja: o jogador vai continuar a jogar privilegiando a brincadeira em determinados ritmos do berimbau. Em outros ritmos de berimbau (como a Iúna, da Regional), o jogador vai privilegiar o estético, o “jogo bonito”. E, ainda em outros ritmos do berimbau, o jogador vai privilegiar os golpes rápidos e objetivos, e o jogo se torna algo com uma forte dose de perigo. 
Muitas pessoas pensam que eu (Nestor) preconiso uma Capoeira que sempre é amistosa, tranquila, onde não há embate de egos. Isto é verdade, mas só até o momento em que o jogador chega num determinado nível, e já está maduro (uns 5 anos), já tem as ferramentas e o preparo para também transar outras possibilidades mais “cascudas”, que geralmente rolam nos ritmos mais rápidos do berimbau. 

UMA AULA DE INICIAÇÃO
Ritual e mito andam juntos. 
Poderíamos talvez dizer que o ritual é o mito em ação. 
Civilizações passadas, que não conheciam a escrita, deixaram sua herança de sabedoria através do mito. Mas, também, aquelas que conheciam perfeitamente a escrita, tinham sua força vital e identidade em seus mitos; estes constituíam o pano-de-fundo panorâmico e os reservatórios de águas profundas donde fluíam os sonhos e imaginação do povo; a maneira diária de viver e fazer coisas; bem como a arte e a ciência. 
Mesmo em nossos dias, até mesmo no mundo ocidental, sentimos a força e sabedoria dos antigos mitos de civilizações de outrora, como, p.ex., os mitos de Édipo, Eletra, Narciso, reinterpretados pela mente ocidental de Sigmund Freud.
Povos e nações que perderam seus mito, ou os trocaram por ou- tros valores
“modernos e contemporâneos”, são como árvores de- senraizadas que não mais se alimentam da terra e dos mananciais de águas profundas, por isto, estão em grande perigo: perderam suas raízes, perderam sua identidade, e vemos a instalação de uma espécie de doença social, ainda que aquela nação tenha atingido um elevado grau de desenvolvimento tecnológico e bem estar material. Trata-se de algo do mesmo contexto da “desterritorialização”.
A capoeira, e a cultura brasileira, estão profundamente enraizadas em mitos que constituíram nossa identidade. Entre estes, estão aqueles que nos tornam bastante “religiosos” ou “espiritualizados”, semelhante, p.ex., à Índia – a Capoeira está para o Brasil, assim como a Yoga para a Índia –; e em oposição, neste aspecto, aos Países Centrais do Primeiro Mundo cujo valor maior é o dinheiro secundado pela tecnologia.

Estes mitos nos vieram dos índios que originalmente habitavam o Brasil; vieram também de Portugal, muitas vezes ligados à feitiçaria ou ao catolicismo ou aos judeus ou à antiga cultura árabe (os árabes estiveram em Portugal durante os quatro séculos que prece- deram a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500); e talvez a contribuição mais forte os mitos que vieram com os milhões de africanos capturados e trazidos ao Brasil para o trabalho escravo.

Mas como funciona o mito no dia-a-dia de uma pessoa?
Tomem meu exemplo neste exato momento: eu posso me imaginar, e me sentir, como mais um elo de uma corrente de energia constituída de carne, sangue, ossos e sonhos, que se inicia lá atrás, com os primeiros capoeiristas africanos no Brasil, que não aceitaram a condição de ser apenas um escravo, algo que não possuía uma alma e podia ser comprado e vendido como um cavalo. Eles mantiveram-se estreitamente ligados às suas culturas, seus rituais e mitos, e assim passaram seu saber para gerações futuras – já agora constituídas de bandidos e marginais no final dos 1800s –; que enfrentaram a sociedade de então: “Nós nos negamos a ser a força de trabalho sobre a qual a classe dominante vai se espojar e vampirizar!”. 
E uniram-se em maltas que aterrorizavam a parte “obediente” da população. 
E estes violentos foras-da-lei também deixaram seu conhecimento de vida e de viver no Jogo, para as futuras gerações de capoeiristas.
E este saber passou para os mestres que criaram as “academias” e os que, após a década de 1930, ensinaram capoeira nestas “academias”, e finalmente veio a mim em 1965 através meu mestre – Leopoldina –, e também daqueles jogadores jovens ou idosos que contribuíram para a formação da minha maneira de jogar o Jogo, dentro e fora da roda.
Neste exato momento, no Institut for Idraet da Odense Universitet, Dinamarca135, sentado diante do computador, escrevendo este texto, sou mais um elo dessa energia que atravessa os séculos, e que se chama Capoeira.
E quando escrevo, não sou só “Eu” que escreve; mas também todos aqueles outros do passado, e também os do presente - os meus contemporâneos no Jogo que participam desta mesma herança. Na verdade, quando eu escrevo, ou jogo, ou ensino capoeira, sou até mesmo aqueles que virão depois de mim e para os quais espero transmitir o que aprendi. 

Na verdade, neste exato momento, diante da tela iluminada do computador, não sou apenas um jogador de capoeira – sou a própria Capoeira.
E por isto sou forte. Este é o poder do Mito; e como ele funciona no dia-a-dia de uma pessoa.
E evidentemente isto é muito diferente de um enfoque ocidental e “primeiro-mundista” de minha atual situação: sentado aqui, eu pensaria se estava ganhando tanto dinheiro quanto ganhava no Brasil; me preocuparia em escrever algo que causasse uma boa impressão, de tal maneira que minha imagem profissional disso se beneficiasse no futuro, a fim de conseguir um maior status e empregos melhor remunerados.
E, por isso, eu seria fraco.
Eu teria somente a mim mesmo.
Um simples e solitário indivíduo confrontando a Sociedade e o Sistema no qual vivemos. 
O Homo Sapiens
O prof. dr. Yuval Noah Harari nos diz (Sapiens, LPM, 2015, pp. 33-36) “comunidades, negócios, redes sociais e unidades militares conseguem se manter principalmente com base em relações íntimas e no fomento de rumores” para grupos de até 150 pessoas. Isto também já acontecia em grupos de chimpanzés de até 50 indivíduos, e também nos grupos de Homo Sapiens
nossos antepassados diretos que apareceram na África Oriental a uns 200 mil anos atrás.
Mas quando este limite, este número de pessoas é ultrapassado, “as coisas já não podem funcionar desta maneira… (no entanto) um grande número de pessoas pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos”. “Mitos”, para Yuval Harari, significam “lendas, deuses, mitos, religiões… e os mitos nacionalistas dos Esta- dos Modernos”, além das regras da moral, das leis, ideologias, e do politicamente correto das diferentes patotinhas da nossa Sociedade. 
Muniz Sodré já nos havia explicado que:
O que se tem como certo é que todo Estado-Nação (Brasil, Mar- rocos, Estados Unidos,
Japão, etc.) procura instituir uma “co- munidade nacional” na base de uma etnicidade fictícia; o que não se entende como uma ilusão qualquer, mas como a montagem pela ilusão de um efeito institucional com sentido histórico e político preciso.
A partir de critérios linguísticos, históricos e biológicos, o Estado nacional “etnicisa” a população essencialisando as suas representações psicossociais por meio de ideologias nacionalistas ou mitos de identidade baseados em cultura, origem e projeto coletivo presumidamente comuns. (cap. 2.4) 

E, a partir daí, eu tinha desenvolvida a ideia de que os jovens mestres (por volta de 1960) também tinham intuitivamente usado estas estratégias em relação aos seus alunos
(de forma semelhante ao Estado-nação em relação ao povo) e que, além disto, tinham criado a ideia (o mito) da existência de um “inimigo externo” (os outros grupos de capoeira,
os outros mestres) a fim de dar mais consistência e união interna aos seus próprios grupos.
Eis que, agora, nos aparece novamente o Mito, inclusive sendo usado para planejar uma aula de capoeira, como veremos a seguir.
O mito em ação: uma perspectiva brasileira de como planejar uma aula de capoeira.
A aula que vamos apresentar não é típica a todos professores da capoeira. Mas ao observar como planejo uma aula, e qual é minha infraestrutura mental ao fazê-lo, talvez você tenha algumas ideias que poderá usar no futuro.
É assim que as coisas funcionam no mundo da capoeira: nós observamos o jogo de outros capoeiristas e “roubamos” o que nos interessa.
Se por acaso você não ensina, de qualquer forma você terá mais uma visão deste universo: ensinar é, geralmente, uma parte importante da vida do jogador de capoeira. 

Esta minha “aula de iniciação” para um grupo que nunca treinou capoeira, alguns sem jamais terem visto uma roda, tem, no mínimo, um duplo objetivo:
1 - Fazer o recém-chegado experimentar o que é o Jogo de Capoeira (baseado no brincar).
Isto significa que em duas horas o iniciante deve estar apto a participar de uma roda; cantando e jogando (mas apesar dos iniciantes interagirem uns com os outros no jogo, eles não darão golpes; pois em apenas uma aula podemos ensinar algum golpe de ataque, mas é impossível ensinar o principiante a se defender).
2 - Tentar “viciar” o máximo de iniciantes, para que eles continuem a aprender e praticar capoeira; ou, ao menos, que eles guardem uma boa recordação, criando um clima geral favorável à Capoeira naquela cidade. 

PRIMEIRA PARTE DA AULA
A primeira parte da aula pode ser esquematizada da seguinte forma: 
1 - Animais.......... (improvisação no chão).......... grupo-unidade
2 - Homens e animais.......... (no chão e em pé)..........dois grupos
3 - Homens dois grupos..........(em pé/no chão)..........pares

COMO E POR QUE CRIEI O EXERCÍCIO “OS ANIMAIS
Ao invés de iniciar a aula com “exercícios de aquecimento”, e/ ou de “alongamento” utilizando repetição mecânica de movimentos; vamos juntar alguns exercícios num todo orgânico.
Nesta nova forma – “os animais” – o principiante é introduzido:
- aos movimentos “no chão”;
- começa a cantar;
- desenvolve a criatividade;
- desenvolve a noção de “tempo” (fazer determinada coisa no instante apropriado);
- e começa a reagir, improvisando de forma intuitiva, face à movimentação de outro jogador.
Na maioria, quase a totalidade das academias, o início de uma aula é tão inapropriada que, em 1985, escrevi o seguinte texto (223): 

GINÁSTICA DE AQUECIMENTO OU DE EMBURRECIMENTO? 
Um-dois-três-quatro! Um-dois-três-quatro! Um-dois-três-quatro! De que se trata?
De um grupo de recrutas de nosso glorioso exército?
Ou de um pelotão de valorosos marines (fuzileiros navais americanos), que estamos cansados de ver treinando nos filmes made in USA?
É o que nos indagamos ao ver o instrutor solidamente plantado no chão, peito estufado, expressão marcial, berrando numa poderosa voz de comando. Os alunos (pois são alunos, e não recrutas), com o cenho contraído e rangendo os dentes, seguem como podem a contagem.
Por incrível que pareça, não se trata da escola militar mas de uma academia de capoeira!
Isto me faz lembrar uma declaração de Ricardo Semler –
”Homem de Negócios da América Latina de 1990”, professor em Har- vard, ex vice-presidente da FIESP, autor de bestsellers sobre organização empresarial: 

Cerca de 1/3 dos esforços das organizações vêm de conceitos anacrônicos, e baseados na hierarquia militar, que eu chamo de “síndrome de internato”.  

Originalmente, nas décadas de 1930 e 1940, não existia realmente uma ginástica metodificada nas incipientes academias de capoeira daquela época; existia, no máximo, uma corridinha e uns “polichinelos”; e a ginástica inicial não durava nem 5 minutos (a aula toda, incluindo a roda, durava uns 45 minutos).
A ginástica no início da aula foi uma novidade introduzida (aproximadamente) na década de 1960, por alguns alunos de Bimba em Salvador, e mais especificamente pelo grupo Senzala no Rio, e pelos (então) jovens mestres baianos de São Paulo (Suassuna, Acordeon, etc.). O pessoal copiou a ginástica da Educação Física, das artes marciais, e até a ginástica usada no exército. A duração da aula aumentou para 1 hora e, mais tarde, para 2 horas.
No entanto, o que não percebemos, na época, é que aquela ginástica era muito boa para um pelotão de infantaria, onde se deseja força e disciplina e obediência; mas as necessidades do jogador são outras.

Em oposição a este sistema que eu também usava entre 1969 e 1990, comecei a experimentar algo mais adequados à capoeira na parte inicial da aula. Eram exercícios onde os alunos atravessavam a sala de diversas maneiras, mas sempre de quatro, somente as mãos e pés tocando o chão, como um gato ou cão (de joelhos não, engatinhar não, cambalhota não).
Percebi que estes tipos de exercícios, apesar de muito diferentes dos usados nas academias de ginástica da moda (tanto no Rio e SP, quanto em Nova Iorque e Los Angeles, etc.), eram muito mais adequados à capoeira pois, inclusive, introduzia o novato à movimentação no chão. 

Eis as diferentes formas de atravessar a sala, que eu usava no início dos 1990s para o aquecimento dos alunos: 

        1. Costas p/cima                             
1a. à frente  1b.para trás 
         2.Costas p/baixo
2a. à frente    2b. para trás

EXERCÍCIO “OS ANIMAIS”
No entanto, apesar de adequadas para o aquecimento muscular dos novatos, estes exercícios ainda eram “mecânicos e repetitivos”, e não incentivavam a criatividade e o brincar dos alunos.
Foi só mais tarde, em 1996, na Dinamarca, que inventei algo novo que juntou as quatro formas acima num único exercício que, na verdade, também era uma brincadeira. 

Chamei esta novidade de “os animais”: pede-se aos alunos que mentalizem um animal de quatro patas (gato, onça, lobo, cachorro, tigre, etc.), e movam-se pela sala utilizando as quatro formas de se movimentar mostradas acima:
O aluno pode, e deve, mudar de uma forma para outra; também pode “inventar” outras formas de se locomover (mas sem tocar os joelhos e o corpo no chão – “cambalhota”, p.ex., não vale).
Ao invés de atravessar a sala, mecanicamente, em linha reta; os alunos vão se movimentar a vontade, por todo o espaço da sala; todos ao mesmo tempo; e sem esbarrar uns nos outros.
Quando dois “animais” se encontram, podem, um circular ao redor do outro; ou então, um deles passa por um “buraco” formado pelo corpo do outro, como se atravessasse um túnel; o que deve ser facilitado por aquele que (sem conversar, e sem combinar nada antecipadamente) decidiu fazer o papel de “túnel”.
Além disto, durante todo o exercício, eles farão o côro a um canto de capoeira; escolher um dos mais simples, se possível com alguém tocando berimbau, pandeiro ou atabaque:
Professor: “São Bento me chama!”
Alunos: “Ai, ai, ai, ai!” 

Este “cantar juntos” é muito importante: vai propiciar uma “unidade energética cósmica”, organizando a movimentação caótica do grupo de novatos em um outro nível
(diferente da organização mecânica dos exercícios em grupo de um pelotão de recrutas do exército). Apesar da movimentação de cada novato ser pessoal, o “cantar juntos” – que funciona como um mantra do tipo que é usado na Índia, ou dos cantos do candomblé e da umbanda que induzem o transe místico –, vai elevar o nível energético do grupo (e de cada aluno) em uníssono. Em especial porque, ao responder em coro – “ai, ai, ai ai!” –, todos tem o mesmo padrão de respiração e pulsação, e faz com que o grupo atinja um outro patamar energético – “getting high”, diriam os gringos; “ficar doidão”, diria algum adolescente caboclo. 

Todos os novatos estão (sem se dar conta) no mesmo ritmo de respiração
(para poder responder ao côro em uníssono), inspirando e expirando o ar juntos, semelhante à nadadores que em uníssono enfiam a cabeça na água (expirando) e depois tiram a cabeça pra fora da água (e inspiram o ar). 

Creio que “os animais” é uma introdução interessante para quem nada sabe de capoeira:
“andar de quatro” desperta longínquas memórias corporais da infância e das brincadeiras de então. Talvez, até mesmo, desperte lembranças muito mais antigas, de nossos antepassados animais antes do aparecimento do homem sobre a face da Terra. 
Além disto, coloca a pessoa numa posição estranha de bunda pra cima como um animal –; em oposição a uma postura ereta, “racional” e “civilizada”.
Creio que este começo ajuda a pessoa a sair da rotina diária para ingressar num “mundo mágico da selva”, uma boa referência (em relação ao que seria a Capoeira) para um iniciante que desconhece a Capoeira.
Além de tudo, e tão importante quanto a parte física do exercício, as pessoas estão cantando; começam a rir quando esbarram, sem querer, umas nas outras; ou quando um “túnel desaba” parcialmente em cima de alguém que está passando por baixo o espírito de brincadeira.
O exercício exige esforço físico, mas as pessoas têm liberdade para criar sua movimentação; estão se divertindo; estão brincando. Eu tento manter este estado de espírito descontraído de brincadeira durante toda a aula.
Por outro lado, no que concerne ao Mito – neste exercício –, temos o grupo de alunos formando uma “Unidade” que se move de maneira caótica (não determinada pelo professor). 

Este tipo de movimento caótico e generalizado de um grupo, que eu chamei pomposamente de “unidade energética cósmica”, sempre obedece a alguma estranha e desconhecida ordem, que tem a ver com o próprio Acaso, e com as leis que regem a própria vida – as “estruturas caóticas” e os “atratores estranhos” da Teoria do Caos. 

Ainda em relação ao Mito: esta Unidade, este Caos, e este Pulsar, remetem ao começo de tudo; ao Absoluto, ao Um, que teria existido antes da criação das coisas e dos seres, e que é mencionado em mitos africanos, orientais, e na Bíblia cristã.
Até a própria ciência possui um mito semelhante (perdoem-me os cientistas): o Big Bang; inicialmente toda a matéria e energia estaria concentrada num único ponto, e então uma grande explosão – Big Bang! – teria iniciado a formação do universo. 
Atenção!
Apesar de ser uma brincadeira, este é um exercício pesado. Preste atenção para não exigir demais das pessoas, especialmente os iniciantes e pessoas mais velhas.

EXERCÍCIO “HOMENS E ANIMAIS”
Agora, após vivenciar o Caos e a Unidade que existiu antes da criação do universo, vamos fazer uma separação semelhante a de muitos mitos:
Deus separou a terra das águas, diz a Bíblia;
depois do Um, vem o ying e o yang (positivo e negativo), dizem os orientais; 
e, em algumas partes da África, o universo é simbolizado por uma cabaça cortada em duas metades que se encaixam, representando o mundo material e espiritual. 

Então, agora, metade dos alunos serão “animais”, fazendo uma movimentação como no exercício anterior; a outra metade serão “homens”.
Os “homens” vão se movimentar (andando caoticamente) em pé por toda a sala, mas não poderão esbarrar em outros “homens” nem nos “animais”.
Todos responderão, semelhante ao exercício anterior, em côro (“ai, ai, ai, ai”)
ao canto puxado pelo professor.
Quando o professor disser “troca”, os “animais” virarão “ho- mens” e vice-versa.
Aqui, os alunos vivenciam duas possibilidades típicas da capoei- ra: o animal que anda de quatro – “jogo no chão” –, e a posição em pé típica do ser humano – “jogo em pé”.
Atenção!
Apesar de ser uma brincadeira, este é um exercício pesado. Preste atenção para não exigir demais das pessoas, especialmente os iniciantes e pessoas mais velhas. 

EXERCÍCIO “OS HOMENS” 
A mesma dinâmica do “homens e animais”, mas agora todos alunos movimentam-se em pé.
Neste exercício, os participantes podem andar rapidamente, e até mesmo correr moderadamente, mas sem esbarrar nos outros.
Não é correr em roda, que nem os cavalinhos no circo, ou o carrocel com cavalinhos de madeira. Corre, para, anda, dá um giro, corre novamente, vai para um lado e depois para o outro, vai na “contramão” dos outros, etc.
E sempre respondendo ao canto em uníssono. Este é um exercício leve. 

EXERCÍCIO DE “IMPROVISAÇÃO EM PÉ E NO CHÃO” PARA DUPLAS DE ALUNOS
1 - Em pé:
Somente agora, após vivenciar a Unidade (“os animais”), e a Grande Dualidade
(“homens e animais”); o aluno vai se “individualizar” e interagir aos pares. Ele vai se movimentar em pé com um companheiro. 
Neste exercício, semelhante aos anteriores, eles continuarão a responder em coro (“ai, ai, ai, ai”) ao canto de capoeira “puxado” pelo professor. 
Os alunos se dividem aos pares, e cada par vai imaginar que estão dentro de um “círculo imaginário” de uns 2 a 3 metros de diâmetro, e não podem sair de dentro do círculo. 
Os dois alunos devem se movimentar em pé, dentro deste círcu- lo, “respondendo” ao movimento do outro. 

Se um ocupa um determinado espaço e começa a andar, o outro procura o espaço vazio; um deles pode tomar a iniciativa, depois é o outro, mas não há regras. Se um deles insiste em “mandar” na movimentação, tomando sempre a iniciativa de ir para lá ou para cá, isto é melhor para o outro que está treinando a “resposta”
(que é o mais difícil; que é o essencial deste exercício). 

Ambos vão evitar determinadas coisas:
- evitam esbarrar, ou até tocar, no outro;
- evitam “bloquear” o outro;
- evitam ir diretamente na direção do outro; na verdade, ambos tentam “dar a volta” no outro, contornando e passando às costas do companheiro
(sempre dentro do tal círculo imaginário de 2 ou 3 metros de diametro). 

Este exercício às vezes é rápido e nervoso; outras vezes é lento e harmônico depende da química entre as personalidades dos dois alunos.
Este é um exercício leve. 

Depois deste exercício com um companheiro, o aluno vai fazer exercício semelhante com um outro aluno.
Depois ele vai racionalmente analisar como se deu aquela in- teração (em relação à anterior).
O par conversa a respeito do que aconteceu entre eles durante o exercício de improvisação em pé, e as diferenças em relação ao que aconteceu anteriormente com o outro aluno
(com o qual também realizou um exercício similar). 
Este tipo de análise é comum a todos os capoeiristas, jovens ou idosos, que analisam seu próprio jogo, ou comentam o jogo de outros pares. Embora a capoeira seja basicamente um viver e experienciar corporal, ela também envolve a mente; mas a mente e o racional não lideraram o processo, sendo apenas uma parte (menor) do todo. Por outro lado, o fato dos alunos terem de comentar (com o seu par) o que acharam do desenrolar do exercício, é algo que sinaliza, ao aluno, que ele não está apenas “recebendo informação” ou “recebendo ordens” – algo que é típico e básico nos métodos de ensino ocidentais; no colégio; no exército;
nos times de futebol (o “técnico” e os “jogadores”), etc. 

O iniciante percebe, talvez inconscientemente, que ele tem um grau de liberdade; aliás, mais ainda, espera-se que ele aja com independência e inteligência.
Na verdade, o iniciante já havia “sentido” esta “liberdade” nesta “aula de introdução à capoeira” (mesmo que esta informação não tenha chegado ao seu consciente, mesmo que ele não a verbalize), quando na abertura da aula, no primeiro exercício – os animais –: “... aluno pode, e deve, mudar de uma forma para outra; também pode inventar outras formas de se locomover”. 
O que estamos frisando é que esta aula deve refletir uma maneira do professor se relacionar com os alunos. Uma maneira sem autoritarismos desnecessários; algo divertido de se fazer; algo que lembra a brincadeira.  Pedir isto ao professor é muito: a maioria gosta, justamente, de “dar ordens”, mandar, exercer a autoridade, e ocasionalmente “dar um esporro”.
Mas sem este enfoque não-autoritário, esta aula fica apenas na “forma externa”, e evidentemente não tem o papel que eu espero dela. 

2 - No chão:
É a mesma dinâmica anterior, só que ao invés de se moverem em pé, os dois iniciantes vão se mover no chão utilizando aquelas maneiras que já vimos ( “os animais”), inclusive “passando pelos túneis”. A única diferença: nos animais o iniciante interagia com toda a turma, e podia se movimentar por toda sala; e aqui vai interagir somente com seu par, dentro do “círculo imaginário” (de uns 2 a 3 metros). 
Atenção!
Apesar de ser uma brincadeira, este “No chão” é um exercício pesado. Preste atenção para não exigir demais das pessoas, especial- mente os iniciantes e pessoas mais velhas. 

Aqui termina a primeira parte desta “aula inaugural”, e deve-se notar que, até aqui, os alunos estão aprendendo “uns com os outros”. O professor apenas estabelece as linhas gerais do exercício, e depois toca o berimbau, ou pandeiro, e “puxa” o canto.
A primeira parte da aula é semelhante ao que acontecia no ensino tradicional da capoeira antes das academias (1930), onde a função do mestre – mais do que “ensinar” – era “criar as condições” para as coisas acontecerem.

SEGUNDA PARTE DA AULA
Agora vamos passar à segunda parte desta aula, que pode ser esquematizada como abaixo: 

1 - Professor à frente..........Todos alunos imitam-no 
2 - Pares de alunos..........Atravessam a sala com “aús”

OBS: o “aú” é o movimento comumente chamado de “estrela”.
EXERCÍCIO “PROFESSOR À FRENTE”
No exercício “Professor à frente”, o professor assume a posição característica ao ensino ocidental: ele estará à frente executando a “ginga”. Os alunos se colocam naquela formação característica da “aula de Educação Física” (ou “pelotão do exército”), e passivamente, recebendo a informação, tentarão imitá-lo gingando junto com o professor.
Esta é a parte “mecânica e repetitiva” do ensino, típica a nosso contexto ocidental, e também usada nas academias de capoeira de nossos dias.
Mas, após entender a parte mecânica de como se movimentar na “ginga” (um pé vai atrás e volta, o outro pé vai atrás e volta; os braços sobem e descem acompanhando), cada aluno deverá colocar seu tempero pessoal no movimento.
Por outro lado, este lance do “professor à frente” vai lembrar aos alunos que a aula está dando ampla liberdade aos iniciantes mas, na verdade, existe alguém ali que sabe coisas que o aluno não sabe. Existe alguém que, sem demonstrar, está no comando das coisas. 

EXERCÍCIO “PARES DE ALUNOS” FAZENDO O AÚ
Agora vamos voltar a situação dos alunos aprendendo uns com os outros.
Neste exercício – “Pares de alunos” –, os alunos deverão atravessar a sala aos pares, um de frente para o outro executando o “aú” (“estrela”, para os não iniciados).
O par executa o , um de frente para o outro; e então eles trocam de lado, e executam novo, até chegarem ao outro lado da sala, para retornarem pelas laterais até o local de onde partiram. 
Observe que, desta maneira, cada aluno executa um por um lado (o lado direito, p.ex.), e após trocar de lugar com seu par, irá executar o pelo outro lado (o esquerdo). E ao chegar ao outro lado da sala, os alunos voltam pelas laterais (pois existem outros pares que também estão atravessando a sala, pelo centro da sala, uns atrás dos outros). 

Neste exercício estamos numa área intermediária entre o “autoritário”
(professor à frente, alunos passivamente imitando-o), e o aprendizado “livre”
(animais, da primeira parte da aula); algo entre o mover retilíneo descartiano,
e o ficar de cabeça pra baixo da capoeira.
Resta dizer que, muitas vezes, o iniciante não consegue executar o “aú”; é algo normal.
Então ele deve dar um baixinho, quase sem tirar os pés do chão.

TERCEIRA PARTE DA AULA:  A RODA
Finalmente temos a terceira parte da aula para encerrar a “aula inaugural”: a “roda”. 
Os alunos formarão um círculo; o professor toca o berimbau e puxa o canto, ao qual os alunos respondem em coro. É melhor ficar no “ai, ai, ai, ai”; ou um outro canto igualmente simples. O professor explica a importância de responder em coro: 
- por um lado, cria uma energia que é “lançada” sobre os dois jogadores no centro da roda, ajudando-os a entrar numa espécie de transe light;
- por outro lado, o aluno ao responder em côro, participa e é energizado por esta corrente energética (ao invés de passivamente esperar, cheio de tédio, sua vez de entrar na roda e jogar). Depois que a roda está “armada”, e todos os alunos já entenderam e estão atuando no lance do coro; finalmente dois alunos entram na roda e se movimentam, improvisando (como haviam feito na improvisação em pé e no chão).  
Eles improvisam em pé; improvisam no chão, inclusive passando pelos “túneis”; e ocasionalmente um pode estar em pé e o outro no chão, mas sempre mantendo o “diálogo”.
Quando uma dupla termina de jogar (sem dar golpes, só na movi- mentação), outra dupla parte do pé do berimbau para dentro da roda.

Depois que todos os alunos jogaram, o professor e os alunos se sentam no chão e batem um papo sobre o que rolou na roda (atenção professor: não é para você monopolizar a fala; os alunos é que de- vem falar e o professor coordena o papo). 

Aí o professor faz uma segunda rodada pedindo para os alunos incorporarem o “aú” na movimentação. Para esta parte final – a 2ª roda –, podem e devem ser dados alguns elementos do ritual, como:
- o canto de entrada;
- a saída do pé do berimbau;
- o jogo mais lento (ritmo de angola) com uma movimentação mais de
“animal na selva preparando uma emboscada”, em oposição ao jogo mais rápido
(são bento grande) com uma movimentação de uma estimulante
“dança de guerreiros”. Sempre sem golpes. 

Muito interessante (você poderá pensar).
Mas será que os alunos estão conscientes de toda esta infraestrutura da “aula inaugural”:
algo semelhante à própria criação do universo e ao aparecimento do homem sobre a face da Terra (Unidade nos animais, Dualidade no homens e animais, etc.)
que acompanha o desenrolar da aula? 

CONCLUSÃO
Será que vale a pena (ou não) explicar para os alunos que a “aula inaugural”, além de tudo, segue, de algum modo, o próprio desenvolvimento dos “métodos de ensino de capoeira” através das gerações:
– inicialmente, na “primeira parte da aula” temos o aprendiza- do “livre”, onde os alunos aprendem uns com os outros (exercícios “animais”, e “homens e animais”); algo semelhante ao aprendizado “livre” que existia antes da década de 1930, e antes da criação das “academias de capoeira”. Onde a função do mestre era apenas a de organizar a roda com os berimbaus, e os novatos aprendiam no próprio jogo. Onde a função do mestre – mais do que “ensinar” – era “criar as condições” para as coisas acontecerem;
– e, mais tarde, na “segunda parte da aula”, o novato é introduzido ao ensino “autoritário” típico de nossa sociedade ocidental, e típico de todas as academias de capoeira de todos os estilos como, p.ex., no exercício “Professor à frente”, onde o professor estará à frente executando a “ginga” e os alunos, passivamente, recebendo a informação, tentam imitá-lo em uníssono.
– e que a minha (Nestor) proposta é inserir treinamentos “livres” que incentivem o brincar (na primeira parte da aula), e também dentro da estrutura “autoritária” (na segunda parte da aula) dos métodos de ensino de nossos dias. 

Em algumas turmas, se você explicar toda a coisa do mito, dos diferentes tipos de “método de ensino”, e de como a aula funciona a partir disto – eles vão adorar.
Em outras turmas, vão achar que muita conversa enche o saco – o que eles querem é ação. 
Cabe ao professor decidir se acompanha a aula com explicações, ou simplesmente dá a aula.
Mas mesmo neste segundo caso – em que os alunos não sabem nada do mito e do ritual, da Unidade, dos métodos de ensino, etc. –, a verdade é que, por estar baseado no mito e no ritual, a sua aula, e a sua postura ao dar a aula, terá uma força e uma qualidade surpreendentes.





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